Márcio AF Souza

Crônicas, poemas © - comentários, citações

18

de
dezembro

Histórias de amor - 2

Estou num lançamento de livros, pessoas bem vestidas, maioria mais velha - uns 50 pra cima. Uma mulher bonita, apenas. É ela. Estou longe, observando-a comer salgadinhos, beber refrigerante, conversar com senhoras. Ela é linda. A sala é barulhenta. O lançamento nem é tudo isso. Nem sei pra quê vim, não como salgadinho e não bebo refrigerante. Ela é linda. Como será seu nome? Bajuladores, cabides, fominhas. Se me pedissem pra falar sobre o ambiente. Diria mais, a luz atrapalha a leitura. Só uma mulher da minha idade bonita, e nem conversamos. Vou esperar a chuva passar e vou. 

 *

Sabe que pra escolher roupa sou rápida. Agora, pra livros eu demoro. Fico na dúvida entre dois, e depois lembro de outro, e mais outro, e se deixar… Mais de dois não posso levar. Não tenho dinheiro pra isso, e meu pai só me permite dois, por vez. Se eu bebesse seria melhor?, seriam só duas? Qual levar? Me ajuda. Me dá uma dica, então. Leio, leio bastante. Adoro ler. Sabe que deixei de namorar pra ler. É sério, era sábado e eu não tinha terminado um livro, e meu namorado - na época não namorávamos - ficou me enchendo o saco pra sair, e eu queria ler. Fiquei lendo. Que besteira, um sábado de nada. Então, qual livro vou levar?

 *

Olha, tô vendo que você tá na pior. Terminou o namoro, não é? Fica assim não. Quando eu tinha sua idade eu também tinha o amor da minha vida. Nós jurávamos que íamos viver juntos por toda vida. E acreditávamos nisso piamente. Namoramos por onze anos. Ela por fim queria casar. Mas já éramos casados. Só no papel e na igreja que não, mas o que isso importa? Fiquei matutando aquilo por uns dois meses até aceitar. Mas antes de aceitar tive que ter uma conversa séria com ela. E aí falei que durante os primeiros quatro anos eu tive uma amante, namorada na verdade. Tive que escolher entre elas e a outra sobrou. Uma não sabia da outra. Sabe o que ela fez quando falei isso? Meteu o pé na minha bunda! Chorei muito, sofri muito. Ela nunca mais quis me ver, atender telefone, nada! Passei muito tempo mal, mas agora melhorou. Mas tem uma coisa, um dia eu consigo comer todas as mulheres do mundo. Se não der do mundo, pelo menos daqui tá bom.

 *

Ah!, como é bom escutar música. Não sei o que seria de mim sem música! Aqui eu esqueço daquela filha da puta da faxineira. Não preciso suportar aquela chefe desgraçada, que não libera um minuto sequer pra gente abrir o e-mail, ler um jornal. O que ela quer? Pior não é isso. O babaca do gerente, puxa saco da chefe, a convidou pra jantar, e quem estava no restaurante, sozinho, jantando? Eu! E o que os dois fizeram? Sentaram à mesa comigo. Fiquei sem graça de dizer que não os queria ali, comigo. E também não podia dizer que esperava alguém, pois eu já havia jantado, estava terminando o vinho para ir sozinho embora. Ah merda! No outro dia iam falar pelos cotovelos que fiquei esperando no restaurante sozinho e ela não apareceu. E aí o mané do Júnior, meu subalterno puxa saco do gerente, ia rir pelas costas. Só música mesmo pra aliviar… Se pudesse ouvir música no trabalho… Aquela filha da puta! Vou aproveitar que estou tranquilo e tomar banho pra dormir.

 *

Li num livro que um homem amava tanto uma mulher que não conseguia mais viver. Não lembro mais o livro, já li tantos. Não sei se é verdade. Mas não precisa ser verdade. O livro é literário, ficção, e mesmo assim as pessoas buscam verdades. Pô, não percebem? Eu sei que os leitores gostam de livros leves, suspenses sem grandes sustos, mistérios decifráveis logo de cara. Mas não me importa. Importa o que eu gosto de ler. Por que tenho que me importar com o quê você gosta? Importa o que eu leio? Leio os brasileiros, novos e “usados”, os franceses, cubanos, argentinos, chilenos, portuguêses, angolanos. Não me importa, se me agrada eu leio. Será que é verdade que uma pessoa pode perder a vontade de viver por amar tanto? Os machões dizem que as mulheres amam mais que os homens. Não acredito. Preciso de um poema pra mandar a uma amada ainda hoje. Qual será que mando?

 

 

28

de
novembro

Senhor Presidente da República

Graças a um jovem bom moço, que escreve cartas aqui na praça da cidade, poderei me comunicar com você. (Digo você porque não tenho porquê chamar um homem de Vossa Excelência se este homem rouba e deixa muitos outros roubarem). Eu não sei escrever e nem sei usar os verbos bonitos, como esse moço aqui sabe, então se tiver um erro ou outro na minha carta é culpa minha, e não do moço.

 

Eu acreditava que você seria um bom presidente. Votei no senhor, convenci meus amigos do boteco a votarem no senhor, fiz apostas, colei adesivos, cartazes, usei camisas, bonés, e em troca o que eu recebo? Nada! Não fizeram o esgoto que prometeram pra nossa favela, a comunidade precisa de água encanada, as crianças não vão à escola porquê não tem professor, os jovens ficam nas ruas, sem empregos, soltos.

 

Eu não posso mais trabalhar. Estou velho, e minha aposentadoria é miserável. Tenho vergonha de falar isso, mas falo. Preciso falar! Cansei de ver na televisão roubos, fraudes, desvios, acusações, escutas telefônicas, tudo mais para provar que deputados, vereadores, prefeitos, juizes, advogados, e mais lá o que for, estão roubando do povo! É isso mesmo, roubando! São ladrões! E o presidente convive com ladrões! Eu também convivo com ladrões, mas não porque quero!

 

Sinto uma enorme vergonha por estar na praça pedindo a um jovem que escreve cartas de amor para casais apaixonados escrever esta porcaria de carta. Sei que não irá ler. Mas preciso falar! Tem idéia do que é ser um velho como eu? Sem emprego, analfabeto, com quatro filhos desempregados, uma filha prostituta (nunca assumi isso!), uma esposa que trabalha em casa de madame como doméstica, um neto. Sabe o que é isso?

 

Sabe presidente, tenho muita vontade de dar uma surra no senhor. É feio dizer isso, mas é verdade! Eu não posso dizer aqui o que deve ser feito no País, não sei também. Sei que você também não sabe. Se sabe não faz. E por que não faz? Não precisa responder, eu sei. (Que vontade de meter a mão na sua cara!). Tem idéia do que estou passando aqui, nesse banco de praça, em frente a um jovem que escreve bonito o que eu falo tudo errado, chorando de raiva, com muita vontade de matar um filho-da-puta-ladrão-ordinário? Tem idéia do que é isso? Atrás de mim tem mais cinco ou seis pessoas, esperando pra declarar seu amor.

 

Vou terminar minha carta. Não posso mais tomar o tempo deste jovem que nem irá cobrar de mim (que humilhação!). Veja, presidente, até este jovem tem pena de um velho fodido como eu. E vocês, têm pena de alguém? Não sentem vergonha? Não sentem dor ao ver pessoas como eu? Não pensa que poderia ser você, seu filho, seu amigo, aliás, você tem amigos?

Com muita raiva, vontade de meter a mão na sua cara, estrangulá-lo, esquartejá-lo…

Zé Ninguém

 

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Esta e outras estarão no livro Conversa Fiada.

22

de
outubro

Chame o Procon

__Boa tarde, em que posso servi-lo?
__É… Vai fazer o que depois do expediente?
__Não entendi.
__Vai fazer o que depois que sair daqui?
__Senhor, deseja algo?
__Sim, claro que desejo. Por isso estou aqui.
__Então em que posso ajudá-lo?
__Olha mocinha, já que me chamou de senhor posso chamá-la de mocinha, eu estou querendo saber a que horas larga o trampo, morô?
__Morei sim.
__Então…
__Então o quê?
__Que horas sai?
__Saio às onze e meia.
__Trabalha até onze e meia aqui?
__Sim, algum problema?
__Pra mim não… Quero dizer…
__Pior é quem vira a noite. O senhor deseja algo da loja?
__A vendedora.
__Qual?
__Você.
__Mas eu não estou a venda!
__No cartaz diz: Tudo dentro da loja…
__Mas não eu.
__Você sim.
__Então você também.
__Eu não trabalho aqui.
__Mas tá dentro.
__Então vou ali fora e falo com você.
__Pode ir. Isso, vai mesmo…
__O que é isso? Fechou a porta!
__Agora não pode comprar nada, a loja fechou! Fechada e com a plaquinha Closed.

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Esta e outras estarão no livro Conversa Fiada.

18

de
outubro

Dos livros…

"Querer não faz nenhuma diferença. Você quer ser, mas isso não afeta em nada o que de fato você será ou é, como indivíduo. Querer eu queria, embora já tenha aprendido o bastante para não querer mais, e isso em nada afeta o que sou ou serei. Tanto você quanto eu somos obrigados a ser o que somos, no sentido mais profundo da expressão, e não podemos fazer nada quanto a isso." (João Ubaldo Ribeiro - Diário do Farol)

 

"Nessa época associávamos estilo com substância, beleza com inteligência. Afinal, éramos um grupo livresco, e em certa idade, se você acredita em literatura, pensa que todos compartilham ou deveriam compartilhar sua convicção e seu gosto. Então, se uma pessoa parece elegante, essa pessoa é um dos nossos. Inocentes do mundo exterior, do Ocidente em particular, não sabíamos ainda que o estilo poderia ser comprado por atacado, que a beleza podia ser apenas uma mercadoria."  (Joseph Brodsky - Marca D´água)

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27

de
setembro

Procura-se Rubem Fonseca

__Bom dia senhor. O senhor é o Rubem Fonseca?
__Quem?
__Rubem Fonseca. Escritor.
__Não. Aconteceu alguma coisa?
__Não. Só estou procurando-o. Obrigado.

__Bom dia senhor. O senhor é o Rubem Fonseca?
__Não. E não conheço ninguém com este nome.
__Obrigado.
__Não tem de quê.

__Bom dia senhor. O senhor é o Rubem Fonseca?
__Não. Por quê?
__Estou procurando-o. Sabe onde posso encontrá-lo?
__Não sei quem é, muito menos onde pode encontrá-lo. Não sabe onde ele trabalha?
__Ele é escritor.
__Então porque não olha a foto dele na orelha do livro?
__Ele não põe foto.
__Esses escritores…
__Obrigado.
__Por nada.

__Bom dia senhor. O senhor é o Rubem Fonseca?
__Não. O que aconteceu com ele?
__Que eu saiba nada. Sabe de alguma coisa?
__Sobre ele não. Só sei alguma coisa sobre o que ele escreve.
__Pois é. Eu também sei disso. Queria encontrá-lo.
__Pra quê?
__Não sei. Na verdade acho que não saberia o que falar com ele…
__Já perguntou a mais alguém?
__Já sim. Uns senhores aqui mesmo.
__E nenhum deles era o Zé?
__Disseram que não.
__Você é jornalista?
__Longe de mim! Sou apenas um leitor. Eu queria saber se ele fala palavrão.
__Só isso?
__Também. Não sabe onde posso encontrá-lo?
__Continue procurando…
__Obrigado.
__Boa sorte.

__Bom dia senhor. O senhor é o Rubem Fonseca?
__Não!
__Obrigado.

__Bom dia senhor. O senhor é o Rubem Fonseca?
__Rubem Fonseca?
__É. O escritor.
__Não sou escritor e nem sou Rubem Fonseca. Já pensou em olhar a fotografia dele na orelha do livro?
__Já sim, mas não tem.
__Então boa sorte meu jovem.
__Obrigado.

__Boa tarde senhor. O senhor é o Rubem Fonseca?
__Sou não. Sou o João Aparecido. Já ouviu falar de mim?
__Não.
__E nem eu do Rubem Fonseca.
__Obrigado.

__Boa tarde senhor. O senhor é o Rubem Fonseca?
__Meu jovem, não sou. Tenho visto você aqui desde cedo abordando alguns senhores. E agora sei o motivo.
__Pois é… queria ver o Rubem Fonseca.
__Só ver?
__Se eu soubesse o que falar com ele melhor ainda.
__Tem idéia de como ele é?
__Mais ou menos. Sei que já é um senhor mais velho, careca…
__Mas você perguntou a pessoas que não são carecas…
__Numa dessa…
__Você lê os livros dele?
__Claro. Já li quase todos.
__Não percebeu ainda que ele prefere não ser paparicado nas ruas?
__Não quero paparicá-lo. Quero apenas vê-lo, e se possível trocar meia dúzia de palavras. E pedir pra ele ler este meu livro aqui. Se ele tiver tempo, claro.
__Entendi… Já passou pela sua cabeça que pode ter falado com ele e não percebeu?
__Já sim. Mas o que posso fazer?
__Por que não envia este livro a editora, e eles mandam pra ele.
__Será?
__Não custa tentar.
__Obrigado senhor.
__Não há de quê.

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Esta e outras crônicas estarão no livro Conversa Fiada.

18

de
setembro

Histórias de amor

A professora dá sua aula pra uma sala com 30 pessoas, e dessa turma apenas um aluno presta atenção. Dedicada, pergunta a cada instante a opinião dos alunos sobre a dificuldade da matéria. Ninguém diz nada, apenas o aluno faz uma pergunta ou outra, pra não deixá-la sem graça.

 

Todos os dias Fernando canta olhando para o espelho. Antes de cantar anuncia sua entrada no palco, e ouve os aplausos da galera ensandecida. Mais do que nunca ele canta a mesma música de todos os dias. Usa a escova como microfone, o espelho como platéia, e a mente como…

 

Flávia chega em casa tarde da noite. Não encontra nada para comer, ninguém para conversar, apenas o cachorrinho da irmã pedindo carinho na barriga. Fazer o quê? Faz carinho e lamenta meia dúzia de palavras ao pobre confidente, que ouve sem falar. Ela só espera o dia seguinte para então comprar um aparelho de som e ouvir todas as noites antes de deitar a mesma música, para se lembrar do amor de sua vida.

 

Sem ir ao cinema há meses, sem nada para fazer, sem amigos, sem namorada, decido ir ao cinema sozinho. Muita gente na sala de espera. Espectativa sobre a qualidade do filme. Vontade de encontrar uma antiga paixão e dividir uma pipoca e um refri. Sento perto da porta para ver quem entra, numa dessas… Fim do filme me levanto e vou pensando por que perco tantos filmes.

 

Joana não aguenta mais piadas sobre sua casa. Pablo não suporta mais o trocadilho sobre seu nome e o poeta chileno. O sogro de Jerônimo torce para o rival. Ana quer namorar Maurício, mas Maurício quer namorar Ruti. Ruti não sabe de nada dessa história. E pra piorar, Renato namora há 10 anos, e é casado há 17 com a esposa.

 

Que confusão! Só lendo!

23

de
agosto

Rodapé

Acabo de ler que nosso vôlei feminino foi campeão olíimpico. Que beleza! Fiquei mais feliz do que com o fracasso do futebol masculino. Na verdade eu encarei todas as vitórias, segundo lugar também é uma vitória!, como um tapa naqueles jogadores-propaganda. Nosso futebol é o único esporte que não treina, não rala, na vende a alma ao diabo para ali estar, numa seleção! Gostam de fotos, autógrafos, festas, aparecer, aparecer. Puta que pariu, como fiquei feliz pelo vôlei, de praia também!

Um colega achou um fracasso a dupla feminina. Porra, será que ele tem idéia do que é ser um atleta de vôlei de praia no Brasil e chegar às Olimpíadas? Imagine o atletismo, handball, gisnásticas, natação, boxe!, e os pára-olímpicos!

Ainda me perguntam pra que o livro!

Um beijo a minha prima Kely, medalha de bronze nas Olímpidas de Sidney. Tenho uma camisa dela pra provar. Por estes dias nascerá seu primeiro filho. Já nasce sob uma glória da mãe!

9

de
agosto

Meu sábado poderia ter sido pior

    Estava eu, Márcio, andando pela lagoa, curtindo uma tarde de sábado. Dia bonito, não ventava muito. Veio em minha direção uma menininha muito bonitinha, de uns 3 anos. Achei a cena linda, e com toda a minha simpatia abri um sorriso, e ela, pra retribuir gritou, chorando: mãe!, mãe!
    Dei uma gargalhada e a mãe da menina ficou sem entender. Cheguei do seu lado e falei, sua filha matou meu sábado, fui sorrir pra ela e ela quase chorou!
    Juro!

15

de
julho

Minha ética ao celular

    Um minutinho turma. Alô, oi queria, tudo bem? Tô, tô na aula sim. Não, pode falar. Pode falar, não tem problema mesmo. Não sei se eles ligam, vou perguntar. Vocês se importam se eu falar ao telefone com minha esposa? Não disse, nem responderam. Mas não importa, toda hora um levanta para atender o telefone, outro mexe toda hora, deve ser mandando mensagem. Aconteceu alguma coisa? Então tá bom. Mas eu saio tarde hoje, dou todas as aulas. Se bem que é sexta, e ninguém fica até o fim. Eu tava pensando em fazer um teste surpresa faltando meia hora pra acabar; não acho sacanagem. Tem hora certa pra acabar a aula, e eu tenho obrigação em passar todo o conteúdo. Tá bom, mas o que precisa comprar no supermercado? Você não pode comprar isso na padaria aí do lado? Mas vai a pé. Pô, isso não dá três sacolas. Tá bom, pode deixar que eu mesmo vou. Mais alguma coisa? E pra comer? Nada? Então vou comprar alguma coisa pra eu comer e vou levar um vinho hoje. Não, não acho que estou bebendo demais! Acho que você está preocupada demais com coisas sem importância; por que não se preocupa com sua saúde mental e desliga essa merda de televisão enquanto fala comigo? Então tá bom, em casa conversamos mais. Vou voltar à aula. Beijo, tchau.
    Onde eu estava mesmo turma?

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Esta e outras crônicas estão no livro Conversa Fiada ©.

12

de
junho

Brindemos à Literatura

    Ontem uma pessoa me perguntou o que significa um trabalho literário para a sociedade. Respondi assim: pouco; e qual o espaço que a literatura tem dentro da sociedade? Não soube responder. E então foi tentando me fazer assumir que o que eu faço não é de utilidade, não serve pra nada.

    Perguntei a ele se ele tinha idéia de que foi a partir d´Os Lusíadas que a língua portuguesa começou a ter forma definida, que foi a partir de A Divina Comédia que a língua italiana passou a ter forma. Veja, foi da arte para a ciência. Me perguntou se não acho frustrante me especializar em algo que quase ninguém se interessa, se fazer Letras não é inútil.

    Já havia me perguntado sobre o valor de trabalho literário antes, e minha resposta foi curta, sem muita vontade pra discussão. Ontem resolvi falar, e ele não teve resposta quando eu falei: já pensou que se não tivesse a Dona Maria, sua professora que ensiou a ler ca-que-qui-co-cu, você ia tomar no cu! ia se foder! Já pensou isso? Você seria um fudido!

    Ele, que estuda engenharia mecânica e gosta de carros, não teve mais resposta. Depois nos contou que tem uma namorada, e hoje, dia dos namorados, tava pensando em terminar com ela, mas não tinha coragem porque ela era virgem. Falei pra ele: você é burro? vai terminar agora?Compra uma flor pra ela.

    Só não falei pra ele mandar uma rosa com um cartão com um poema porque ele iria entrar na internet, pegar um poema que recebeu no email com o nome do Veríssimo, e ela ia achar a milésia maravilha, sem saber que o Autor não escreve poesias…

    Toda vez que alguém fala que cada um tem um gosto eu respondo: ainda bem!

PS: Leia o que Rubem Fonseca escreveu sobre essa história de que a literatura de ficção morreu; aliás, seu último livro "O Romance Morreu" é um tapa nessas pessoas; ou não?

Poema de Carlos Drummond de Andrade.

O AMOR ANTIGO

 

O amor antigo vive de si mesmo,

não de cultivo alheio ou de presença.

Nada exige nem pede. Nada espera,

mas do destino vão nega a sentença.

 

O amor antigo tem raízes fundas,

feitas de sofrimento e de beleza.

Por aquelas mergulha no infinito,

e por estas suplanta a beleza.

 

Se em toda parte o amor desmorona

aquilo que foi grande e deslumbrante,

o antigo amor, porém nunca fenece

e a cada dia surge mais amante.

 

Mais ardente, mas pobre de esperança.

Mais triste? Não. Ele venceu a dor,

e resplandece no seu canto obscuro,

tanto mais velho quanto mais amor.

 

 

    Imagina se o camarada mandasse este poema à sua namorada… Uma pena que pra ele a Literatura não vale nada… Imagina se o camarada soubesse o que uma mulher sente ao receber um poema… Mas ele só têm olhos pra carros…

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