Márcio AF Souza

Crônicas, poemas © - comentários, citações

22

de
agosto

Quem é esta mulher?

Apaixonado pela poesia de Vinícius de Moraes, lendo e conhecendo novos poemas, encontrei esse que logo irá ler. E me veio uma dúvida: a quem ele dedicou o poema?

Leia, leitor, e responda: que mulher é essa? Eu tenho minhas suspeitas…

A uma mulher 
                                       Vinicius de Moraes

Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito       Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
Quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
E que era preciso fugir para não perder o único instante
Em que foste realmente a ausência de sofrimento
Em que realmente foste a serenidade.

 

Propus esta pergunta aos companheiros do Grupo Gauche de Literatura, do qual faço parte. www.grupogauche.blogspot.com

 

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12

de
junho

12 de junho de 2007

Ternura 

                             Vinicius de Moraes

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma…
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar 
                                                                                    [ extático da aurora.

Texto extraído da antologia "Vinicius de Moraes - Poesia completa e prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 259.

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Eu queria trazer-te uns versos muito lindos 

                                      Mario Quintana

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim…
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir…
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas… e que estão escritas
do lado de fora do papel… Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia…
como
uma pobre lanterna que incendiou!

7

de
maio

Leitor chato

Será que ser leitor é ser chato? Às vezes tenho esta impressão. To certo? Não sei. O que acha?

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13

de
abril

Leituras 5

Estou relendo A Caverna, de José Saramago. Quando li, era um jovem de pouca leitura. Continuo com poucas leituras, o que mudou foi o parâmetro. Li há cinco anos. Aqui vai um trecho que combina com o que tenho refletido atualmente. (Não havia pensado isso ainda; me clareou).

 

"Puro engano de inocentes e desprevenidos, o princípio nunca foi a ponta nítida e precisa de uma linha, o princípio é um processo lentíssimo, demorado, que exige tempo e paciência para se perceber em que direcção quer ir, que tenteia o caminho como um cego, o princípio é só o princípio, o que fez vale tanto como nada."

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30

de
março

Leituras 4

"Mas não faz mais nada além de ler? Vai ficar louco!!!!!"

 

Mais uma de Incidente em Antares, de Erico Verissimo.

 

"___ Eu estava na igreja quando o Padre Gerôncio anunciou o Juízo Final. Confesso que a princípio fiquei alarmado, com vontade de sair correndo para casa, mas depois, pensando melhor, concluí que o Juízo Final é um… um negócio tão grande… tão importante… tão… tão final, que Deus não podia começar uma coisa enorme assim sem antes avisar a humanidade, fazer um anúncio qualquer. Não sei se estou me expressando claro…

(…)

___ Compreendo. O senhor imagina o Juízo Final como o show dos shows, um superespetáculo caríssimo, desses que em televisão só podem ser patrocinados por firmas poderosas como  a Standard Oil, a Ford, a General Motors… Seu Deus, em suma, é um empresário preocupado com o IBOPE, não? "      Esta última é a voz do Padre Pedro-Paulo. (Lembram dele, não?)

 

 

 

De Zeca Baleiro, Flor da Pele. (Trecho)

 

Ando tão a flor da pele que minha pele tem o fogo do Juízo Final

Um barco sem porto sem rumo sem vela cavalo sem sela

Um bicho solto um cão sem dono um menino um bandido

Ás vezes me preservo noutras suicido

 

 

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22

de
março

Leituras 2

Resolvi colocar um poema. Que tem sentido.

 

Soneto da separação
                                                Vinicius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Como disse Fernando Pessoa "Tudo vale a pena sua alma não é pequena"

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22

de
março

Leituras

Tenho feito algumas leituras ao longo dos últimos anos. Aqui vai uns trechos que tirei dessas leituras.

"Meu nome é um verso" João Ubaldo Ribeiro, Sargento Getúlio

Grandes Sertão: Veredas   João Guimarães Rosa

"Quem desconfia, fica sábio" (154)

"Moço! Deus é paciência. O contrário, é o diabo.) (33)

"Moço, toda saudade é uma espécie de velhice." (56)

Vingar, digo ao senhor: é lamber, frio, o que outro cozinhou quente demais." (110)

"A senvergonhice reina, tão leve e leve pertencidamente, que por primeiro não se crê no sincero sem maldade" (163)

Outra hora tem mais de Rosa.

 

"__Sou um homem, e portanto cheio de defeitos e fraquesas. Minha carne com muita frequência grita de fome, às vezes com uma força que me estonteia. Claro, muitas vezes tenho minhas dúvidas. Não faz muito atravessei um período de tão forte crise espiritual que escrevi uma longa carta a um monsenhor que admiro e estimo, contando-lhe tudo. Usei nessa carta confessional a expressão: "sinto que minha fé está presa por um fio". Sabe o que ele me respondeu? Que se regozijava por saber que a coisa era assim, pois não confiava muito nas chamadas "fés inacabaláveis" dessas que julgam poder deslocar montanhas. São demasiadamente teatrais para serem profundas — escreveu o monsenhor. "O fio que prende a sua fé deve ser do melhor aço e portanto resistente e ao mesmo tempo flexível. Fé sem flexibilidade, fé sem dúvida pode acabar em fanatismo." Terminou a carta assim: "Reze a Deus, peça-lhe para que faça esse fio resplandecer sempre a Sua luz". (Esta é a voz do padre Pedro-Paulo)

Erico Verissimo, Incidente em Antares

 

Este poema eu escrevi dia 20/03/2007, e logo logo será musicado.

            

  Agora não né…

Eu não olho mais sua fotografia como antes

Não trocamos mais palavras como antes

Não trocamos mais risadas como antes

Nossos olhos não se cruzam como antes

Nossos caminhos cada vez mais distantes

Me leva a pensar:

um errante pensante pode se desculpar?

Um errante constante tende a pensar

numa desculpa perfeita para empolgar

e tão logo abraçar e se desculpar

dizendo bem alto, até gritar:

"Quem dera ontem fosse eu hoje!"

 

                             Márcio Augusto Fraga de Souza

 

Um grande abraço, leitora. E leitor, claro.

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