Márcio AF Souza

Crônicas, poemas © - comentários, citações

25

de
junho

Olha isso…

Estou lendo McMáfia, de Misha Glenny, e li estas duas frases que não podem ficar de fora. E combina conosco, mesmo falando de um país do outro lado do mundo…

“O crime organizado e a corrupção prosperam em regiões e países em que a confiança popular nas instituições é frágil.” (p.99)

“Mas o que a fraude demonstra, sem sombra de dúvida, é que, quando um sindicato do crime convence um Estado poderoso a concordar ou cooperar com suas negociatas, tem em mãos a senha mágica para a gruta dos tesouros de Aladim. Porque não existe organização criminosa mais bem-sucedida do que a que conta com o apoio estatal.” (p. 107)

Será mesmo? Às vezes eu penso que isso não é nada anormal… O Sarney, o ACM… Essa corja toda aí, mandando e desmandando, sem grandes problemas.

Agora imagine se a vovó ACM, antes deste neto ter nascio, tivesse feito um aborto. Seria pecado? A mesma situação com a vovó Sarney, seria pecado um aborto nestas condições?

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18

de
outubro

Dos livros…

"Querer não faz nenhuma diferença. Você quer ser, mas isso não afeta em nada o que de fato você será ou é, como indivíduo. Querer eu queria, embora já tenha aprendido o bastante para não querer mais, e isso em nada afeta o que sou ou serei. Tanto você quanto eu somos obrigados a ser o que somos, no sentido mais profundo da expressão, e não podemos fazer nada quanto a isso." (João Ubaldo Ribeiro - Diário do Farol)

 

"Nessa época associávamos estilo com substância, beleza com inteligência. Afinal, éramos um grupo livresco, e em certa idade, se você acredita em literatura, pensa que todos compartilham ou deveriam compartilhar sua convicção e seu gosto. Então, se uma pessoa parece elegante, essa pessoa é um dos nossos. Inocentes do mundo exterior, do Ocidente em particular, não sabíamos ainda que o estilo poderia ser comprado por atacado, que a beleza podia ser apenas uma mercadoria."  (Joseph Brodsky - Marca D´água)

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12

de
junho

Brindemos à Literatura

    Ontem uma pessoa me perguntou o que significa um trabalho literário para a sociedade. Respondi assim: pouco; e qual o espaço que a literatura tem dentro da sociedade? Não soube responder. E então foi tentando me fazer assumir que o que eu faço não é de utilidade, não serve pra nada.

    Perguntei a ele se ele tinha idéia de que foi a partir d´Os Lusíadas que a língua portuguesa começou a ter forma definida, que foi a partir de A Divina Comédia que a língua italiana passou a ter forma. Veja, foi da arte para a ciência. Me perguntou se não acho frustrante me especializar em algo que quase ninguém se interessa, se fazer Letras não é inútil.

    Já havia me perguntado sobre o valor de trabalho literário antes, e minha resposta foi curta, sem muita vontade pra discussão. Ontem resolvi falar, e ele não teve resposta quando eu falei: já pensou que se não tivesse a Dona Maria, sua professora que ensiou a ler ca-que-qui-co-cu, você ia tomar no cu! ia se foder! Já pensou isso? Você seria um fudido!

    Ele, que estuda engenharia mecânica e gosta de carros, não teve mais resposta. Depois nos contou que tem uma namorada, e hoje, dia dos namorados, tava pensando em terminar com ela, mas não tinha coragem porque ela era virgem. Falei pra ele: você é burro? vai terminar agora?Compra uma flor pra ela.

    Só não falei pra ele mandar uma rosa com um cartão com um poema porque ele iria entrar na internet, pegar um poema que recebeu no email com o nome do Veríssimo, e ela ia achar a milésia maravilha, sem saber que o Autor não escreve poesias…

    Toda vez que alguém fala que cada um tem um gosto eu respondo: ainda bem!

PS: Leia o que Rubem Fonseca escreveu sobre essa história de que a literatura de ficção morreu; aliás, seu último livro "O Romance Morreu" é um tapa nessas pessoas; ou não?

Poema de Carlos Drummond de Andrade.

O AMOR ANTIGO

 

O amor antigo vive de si mesmo,

não de cultivo alheio ou de presença.

Nada exige nem pede. Nada espera,

mas do destino vão nega a sentença.

 

O amor antigo tem raízes fundas,

feitas de sofrimento e de beleza.

Por aquelas mergulha no infinito,

e por estas suplanta a beleza.

 

Se em toda parte o amor desmorona

aquilo que foi grande e deslumbrante,

o antigo amor, porém nunca fenece

e a cada dia surge mais amante.

 

Mais ardente, mas pobre de esperança.

Mais triste? Não. Ele venceu a dor,

e resplandece no seu canto obscuro,

tanto mais velho quanto mais amor.

 

 

    Imagina se o camarada mandasse este poema à sua namorada… Uma pena que pra ele a Literatura não vale nada… Imagina se o camarada soubesse o que uma mulher sente ao receber um poema… Mas ele só têm olhos pra carros…

23

de
abril

Aos livros, aos seus autores, e aos seus leitores

Diz que hoje é o Dia do Livro e dos Direitos dos Autores, e entã resolvi prestar uma pequena homenagem. Selecionei alguns poemas e trechos para ilustrar este dia.
O primeiro é do poeta português Antero de Quental, o qual tomei conhecimento lendo uma crônica do Rubem Fonseca.


TORMENTO DO IDEAL

Conheci a Beleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,

 

Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre:
Assim eu vi o Mundo e o que ele encerra

Perder a cor, bem como a nuvem que erra

Ao pôr do Sol e sobre o mar discorre.

Pedindo à forma, em vão, a ideia pura,
Tropeço, sombras, na matéria dura,
E encontro a imperfeição de quanto existe.

Recebi o baptismo dos poetas,
E, assentado entre as formas incompletas,
Para sempre fiquei pálido e triste.

E então passo a palavra a um grande gênio da língua, João Guimarães Rosa, do Grande Sertão: Veredas.

"Quem desconfia, fica sábio."
"A senvergonhice reina, tão leve e leve pertencidamente, que de primeiro não se crê no sincero sem maldade".
"Moço! Deus é pasciência. O contrário, é o diabo."

E então chega Mário Quintana e diz:
Da condição humana

"Se variam na casta, idêntico é o miolo
Julguem-se embora de diversa forma
Ninguém mais se parece a um verdadeiro tolo
Que o mais sutil dos sábios quando ama."

E aí Bandeira diz:

Quintanares

"Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.
Quinta-essência de cantares…
Insólitos, singulares…
Cantares? Não! Quintanares!"

Esta é uma pequena mostra do que habita meu pensamento.

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28

de
fevereiro

Rubem Fonseca

Hoje já coloquei no meu novo varal de poesia "Da condição Humana" e "Da discração" ambos de Mário Quintana, uma frase de João Guimarães Rosa. Agora um trecho de Rubem Fonseca, do conto Intestino Grosso.

"Entre meus leitores existem também os que são tão idiotas quanto os legumes humanos que passam todas as horas olhando televisão. Eu gostaria de dizer que a literatura é inútil, mas não é, num mundo em que pululam cada vez mais técnicos. Para cada Central Nuclear é preciso uma porção de poetas e artistas, do contrário estamos fodidos antes mesmo da bomba explodir."
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5

de
fevereiro

Novas leituras abrem os olhos, sempre

Do livro O Valor do Amanhã, Eduardo Giannetti

"Muitas vezes, a arte de agir no momento certo está para o tempo assim como a arte da dança está para o espaço." (p. 71)

 

"Quanto mais calculamos o benefício marginal de um hora ´gasta` desta ou daquela maneira, mais nos afastamos de tudo aquilo que gostaríamos que ela fosse: um momento de entrega, abandono e plenitude na correnteza da vida. Na amizade e no amor; no trabalho criativo e na busca do saber; no esporte e na fruição do belo - as horas mais felizes de nossas vidas são precisamente aquelas em que perdemos a noção da hora. O excesso de juízo carece de juízo." (p. 208-9)

 

"Onde quer que os homens civilizados tenham aparecido pela primeira vez, eles foram vistos pelos nativos como demônios, fantasmas e espectros.Nunca como homens vivos! Eis aí uma intuição inigualável, um insight profético, se jamais houve algum"    E.M. Cioram, Trouble with being born

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31

de
outubro

Eu leio isso

"É uma estupidez deixar perder o presente só pelo medo de não vir a ganhar o futuro"  José Saramago

 

"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro"  Vinícius de Moraes

 

"Itabira é apenas uma fotografia na parede.

Mas como dói!"  Carlos Drummond de Andrade

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16

de
outubro

Como dói

"Esses dois olhos tristes que a terra a de comer / viram tanta injustiça acontecer / calaram a voz do nosso amor"     Max de Castro

 

"O que eu sofri por causa de amor ninguém sofreu / Eu chorei, perdi a paz" Vinícius de Moraes

 

"Cada ser tem sonhos a sua maneira (…) Ali tão certo e justo e só te sendo / Absinto-me de ti, mas sempre vivo"    Lula Queiroga / Pedro Luis

 

"Eu só aceito a condição de ter você só pra mim"  Rodrigo Amarante

 

"Deixa eu brincar de ser feliz / Deixa eu pintar o meu nariz"  Marcelo Camelo

 

"Meu coração é uma máquina de escrever"  Pedro Luis

 

"Quem me dera todo dia ter meu amor aqui, me fazendo paz"  Marcim

 

"Eu finjo ter paciência"    Lenine

 

6

de
outubro

Aos amigos

Eu descobri que realmente tenho bons amigos. E o que é amizade? Guimarães Rosa escreveu assim em Grande Sertão: Veredas :

"Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais.Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou - amigo -é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é."  (p. 196. 19ª edição)

Pois é, aí você pensou agora: claro! É isto mesmo! Aí eu pensei: você tem razão, não se discorda de um texto, não é? Ainda mais de um escritor famoso… Acho que Machado de Assis diria disto: pobre leitor. (Serei legal agora: este disto se refere a duvidar).
Pois eu acho que sou amigo de João Guimarães Rosa, Machado de Assis, Drummond, Mário Quintana, José Saramago, Millôr…

Dedicado aos meu bons amigos, os de Foz do Iguaçu (que são tantos), os de Floripa (que tempo!), os de BH (novos e velhos bons amigos), e todos os meus amigos verdadeiros. Não acho que é o contato direto que nos faz bons amigos, nem as declarações…

20

de
setembro

Poema de Cora Coralina

Conclusões de Aninha


Cora Coralina


Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.

O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?

Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática, a teoria é outra.

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