Márcio AF Souza

Crônicas, poemas © - comentários, citações

10

de
junho

Ensaio de uma aula de português

Um com seis são um baita problemão

Um com seis são um primo chatão

Se três com seis não são nem uma dezena

Seis com seis são uma dúzia de…

Se com uma é pouco, duas é bom e três é demais

Imagine que com seis são uma chatice

.

Baseado apensas nesses versinhos, podemos explicar e ensinar um pouco de língua portuguesa. Não são versos literários, apesar de contes elementos que caracterizam a poesia. Podemos também dizer que não passa de uma brincadeira com palavras que formam rimas. Ensinar a usar a língua portuguesa é o importante, e não mandar decorar regras, tempos verbais, sem ensinar a usar, para tirar nota em provas.

Pode-se dizer que esta é uma pequena introdução às nomenclaturas matemáticas. Uma maneira de mostrar aos colegas que podemos associar a qualquer área o ensino da nossa bonita língua portuguesa. Isto é subjetividade da língua.

Vejamos agora como ensinar português com estes versos; usaremos primeiro o primeiro verso, apenas:

“Um com seis são um baita problemão”.

A primeira pergunta que faria a um aluno seria: por que o ponto está fora das aspas? E com isso podemos ensinar os alunos a usar citação em texto. Podemos dizer que eles podem fazer isto. Perguntaria também se o “Um” é artigo ou numero, e como ele pode exlicar isto.

Depois de o aluno responder a essas duas pergunta, perguntaria a o que significa sintaticamente “com”, visto que outras têm significado semelhante. Para responder esta pergunta ele deveria saber que a preposição foi posta de propósito como segunda palavra, para manter a oralidade. Com isso, estaremos ensinando a usar preposições.

Pode-se ensinar concordância verbal usando o verbo “são”, do verso. Como a preposição une o “um” com o “seis” ao verbo. Qual significado sintático do “um” e do “seis”? Quem “são um baita problemão”? Este verso também serve para explicar formação de frase – sujeito, verbo, complemento?

Para quem faz curso de letras, perguntaria, além das perguntas anteriores, o que significa, lingüisticamente, baita. Perguntaria também que elementos fazem destes versos, agora todos, um verso literário, uma poesia. E perguntaria a turma se eles entenderam o que eu quis mostrar, e, não somente, o que eles viram.

Passamos ao segundo verso: Um com seis são um primo chatão. Este primo quer dizer o quê? Uma soma matemática? Um parente?

Com apenas uma frase podemos ensinar um pouco aos alunos, imagine com um ano de trabalho sério, com todos à vontade.

Será que podemos ensinar os alunos desta forma, mostrando o que podemos fazer com o idioma? Será que os alunos nos levarão a sério, como os professores, e futuros professores?

—-

Esta “brincadeira com palavras” foi escrita pelo aluno Márcio AF Souza no ano de 2003, e faz parte de um poema, do próprio autor.

Com ela, não quer dizer nada mais fo que está escrito.

–>*Nossa, isso no meu primeiro ano de faculdade. Fiz para uma professora. Descubra o nome dela e ganhe um prêmio.

Ei-lo:

.

Um com 6?

Um com seis são um baita problemão

Um com seis são um primo chatão

Se três com seis não são nem uma dezena

Seis com seis são uma dúzia de…

Se com uma é pouco, duas é bom e três é demais

Imagine que com seis são uma chatice

(hoje quem manda não sou eu, ó Berenice!)

Não diga nada a ninguém que eu disse

que aquela com seis são uma chatice.

Mas como todas Berenice é tagarela

abriu a boca desfilando na passarela:

“Eita mundão com seis são difícil de lidar

E o poeta taí pra te alertar

Se ri sozinho não se espante, não é droga!

Se ri sozinho pode ser uma nova obra.

Ele vê coisas que jamais você veria

Ele diz coisas que você jamais diria.

3

de
junho

A escola do futuro, antevista por Machado de Assis

Ela não acreditou que Gabriel estivesse lendo um livro, disse que ele odiava ler livros. Acrescentei que era um livro do Machado de Assis e ela fez uma careta dizendo que quando mandavam ela ler Machado de Assis no colégio ela não conseguia e pedia a uma amiga para lhe dizer qual era a trama do livro, e acrescentou que Machado de Assis era um chato insuportável.
                                           Rubem Fonseca – Alice (ELA e outras mulheres)

 

 

 

“O Bruxo do Cosme Velho”

    Machado de Assis (1839 – 1908), considerado por muitos o maior escritor brasileiro de todos os tempos, algoz dos estudantes colegiais - não por culpa sua, claro - é natural do Rio de Janeiro. Órfão desde menino, teve uma vida simples e humilde. Pouco se conhece de sua infância e adolescência.
    Criou a Academia Brasileira de Letras junto com amigos intelectuais; escolheu como patrono o amigo já falecido José de Alencar. Fundou a cadeira de número 23, e com ela tornou-se imortal das Letras. Ocupou a presidência da Casa por mais de dez anos.
    Escreveu poemas, crônicas, contos, peças teatrais, romances. Destacou-se entre os maiores contistas e romancistas da Literatura a partir do ano de 1881; desta época estão os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904); as coletâneas de contos Papéis avulsos (1882), Várias histórias (1896), Histórias sem data (1899); entre outros.

Conto

   Entende-se por conto uma narrativa relativamente curta, com número menor de personagens, de espaço, de tempo, em relação à novela, ao romance. (Salvo alguns contos, como: “O Alienista”, Machado de Assis; “A arte de andar a pé nas ruas do Rio de Janeiro”, Rubem Fonseca). É, por característica, um texto conciso, em que o narrador dá ao leitor pistas ao longo da história contada. Esta história geralmente tem por trás uma segunda história, que o leitor hábil nota durante a leitura.

O Conto de Escola

    O “Conto de Escola”, publicado no livro Várias Histórias (1896), narra a história de um menino, Pilar, que aprende na escola algumas maldades e crueldades da vida, como a delação, a corrupção, o abuso do poder.
    Certo dia Pilar acorda e olha pela janela um lindo dia de céu claro, pensa em não ir à escola, mas lembra-se da surra que levara do pai por fazer dois feriados escolares durante a semana letiva; por esta razão vai à escola. Entra com medo do professor e senta-se. Fica a contemplar o papagaio pela janela. Seu colega de classe, Raimundo, filho do “mestre” Policarpo, pede que lhe ensine um ponto da lição de sintaxe, e junto ao pedido mostra-lhe uma moeda. Que tentação!
    Pilar, que já havia ensinado antes ao colega, fica seduzido pela idéia de ter uma moeda e ensina-lhe a lição por meio de um pedaço de papel, durante a aula. Tudo bem até então, só que, a cegueira causada pelo desejo não o deixa enxergar Curvelo, colega de classe sentado ao fundo da sala. Este delata os dois, Pilar e Raimundo, ao professor.
    O mestre profere um enorme sermão nos dois, joga a moeda pela janela e castiga-lhes com a temida palmatória. Todos ficam calados, principalmente Curvelo, o denunciante. Pilar senta-se e planeja encontrá-lo na rua para tirar satisfação; porém, Curvelo, o maior e mais velho da turma, não é visto na rua; corre de medo.
    Pilar não conta em casa o ocorrido. No dia seguinte sai cedo de casa a procura da moeda pela rua. Não a encontra. No meio do caminho (Ah! Drummond) encontra a companhia do batalhão de fuzileiros com sua respectiva fanfarra. Tenta-se com o tambor e vai atrás dele. E a escola?

© by Márcio A.F. Souza

Arquivado em: Ensaio © I Comentários (0)

3

de
junho

A escola do futuro (continuação)

A escola do futuro

    Pilar é menino inteligente, bom na escola, capaz de aprender rápido a lição e ensinar ao colega. “Na lição de escrita, por exemplo, acabava sempre antes de todos, mas deixava-me estar a recortar narizes no papel ou na tábua”. Mesmo bom aluno tinha medo do “mestre” pela severidade, pelo rigor com que tratava a disciplina em sala de aula; os alunos ficavam quietos, com medo da palmatória. A escola hoje não tem a palmatória, mas têm as notas, as faltas, os telefonemas aos pais.
    A escola deveria ser um lugar para trocar conhecimentos, fazer amizades, aprender conteúdos vigentes para toda a vida, aprender a respeitar, a ser respeitado. Mas não, nosso mestre nos ilustra uma escola em que as teorias pedagógicas não existem. Hoje elas existem, e mesmo assim as escolas mantêm à força os alunos na linha. Pois bem, o bom aluno ajuda o mau aluno, e o que recebe em troca é uma sova de palmatória.
    O professor entra, senta-se, manda os alunos abrirem seus livros e começarem a fazer a lição. Não ensina. Não explica. Não tira dúvida. Senta e lê o jornal. Ele não conhece a turma, com certeza! “O pior que ele poderia ter, para nós, era a palmatória. E essa lá estava, pendurada do portal da janela, à direita, com os seus cinco olhos do diabo.” Que professor é este? Que escola é essa em que o aluno não tem coragem de pedir ao professor que explique novamente o conteúdo?
    O menino Pilar sente-se tentado ao ver a moeda na mão de Raimundo. “Respondi-lhe que estava caçoando, mas ele jurou que não.” E então parte para reflexões sobre o porquê da moeda, se era para garantir que lhe ensinasse direito, sem má-fé. Em primeira instância não pensou estar errado em aceitar a moeda, achava justo, “na troca de lição e dinheiro, compra franca, positiva, toma lá, dá cá; tal foi a causa da sensação.”
    Observe os termos “compra franca”, “positiva”, “tal foi a causa da sensação”. Não há maldade no pedido e muito menos em aceitar. Não aceita só pela moeda, mas para ajudar o menino. “Se me tem pedido a coisa por favor, alcançá-la-ia do mesmo modo, como de outras vezes”. Pilar foi bom amigo de Raimundo em ensinar a lição, pois sabia o castigo que receberia do pai o colega.
    Um menino em sala de aula com dificuldade de aprendizagem, tendo como professor o próprio pai, é obrigado pelo medo de ser castigado a ficar quieto, a recorrer ao colega para ensinar-lhe um ponto da lição. É certo que é muito difícil um aluno levantar a mão e pedir ao professor que repita a explicação nas escolas hoje, pois, não é o professor quem censura, quem utiliza a palmatória, e sim as vaias dos colegas.
    Descoberto (delatado) o negócio, os dois alunos são chamados à frente para esclarecimentos.

Policarpo bradou de novo que lhe desse a moeda, e eu não resisti mais, meti a mão no bolso, vagarosamente, saquei-a e entreguei-lha. (…) Acabou, pregou-nos outro sermão. Chamou-nos sem-vergonhas, desaforados, e jurou que se repetíssemos o negócio, apanharíamos tal castigo que nos havia de lembrar para todo sempre. E exclamava: Porcalhões! tratantes! faltos de brio!

    Interessante notar o tratamento dado pelo professor aos alunos. Poderia ter perguntado o que não havia compreendido seu filho, parabenizar o colega por ter ensinado o outro, mas não, brigou, insultou, xingou, humilhou os meninos diante da turma. Isso sim é didática do medo, da ameaça, do rebaixamento.
    O delator, Curvelo, tremeu de medo, e no fim da aula saiu e não foi visto pelas ruas ao redor da escola. Este era o maior e mais velho da turma; provavelmente mais covarde.
    Antes do castigo o menino acreditava não haver maldade no negócio, porém, depois, “a pratinha era bonita e foram eles, Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação”.
    Interessante notar que o castigo fez o menino acreditar que tinha mesmo feito algo ruim, contra as normas e valores. Acrescente-se aos conhecimentos do jovem o abuso de poder. O professor tem o poder maior em sala de aula. E algo tem mais poder que ele dentro da sala: a palmatória! Hoje são os diários!
    O tempo se encarrega das mudanças!

Considerações finais

    Quando se pensa em escola, em primeiro lugar, vem à mente amizade, aprendizagem, companheirismo, respeito, troca de informações e conhecimentos. No entanto, não é isso que nos mostra o “Bruxo do Cosme Velho”.
    O texto literário abre portas para discussões a partir de diversos aspectos intrínsecos. Neste caso foi a escola. A maneira como a escola é, com o professor como ditador das regras, os alunos abaixando a cabeça e respondendo ao livro. Não há ensinamento.
    Não se parte dos clássicos, se chega aos clássicos!

________________________________________________________

Este ensaio participa do 1º Concurso Ensaios Universitários (BH); estará na revista "A vida de quem não morre", produzida pelo amigo Ildo Carbonera, em Foz do Iguaçu, que neste ano homenageará Machado de Assis.  © by Márcio A.F. Souza

Arquivado em: Ensaio © I Comentários (0)

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://marcioafsouza.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o servio e siga participando do Terra Blog.