5
de
fevereiro
Dúvida cruel
__Você tem os cabelinhos da xoxota assim?
__Quê?!
__Os cabelinhos…
__Você é maluco?
__Claro que não. Sou curioso. São roxos?
__Não. São rosas. Quer ver?
__Agora?
__Pode ser. Quer?
__São roxos?
__Você mesmo pode ver. Com seus próprios olhos.
__Aqui?
__Qual é o problema? Não é curioso?
__Sou. Já fiz tratamento com psicólogas por anos, pra falar a verdade.
__E pelo visto não adiantou muito, não é?… Você só pode ser maluco.
__Não sou. Acredita?
__Pior que acredito. Posso falar uma coisa?
__Claro.
__Tô apaixonada!
__É mesmo?!
__Juro.
__E pode me falar quem é o sortudo?
__Você!
__Acho que você é maluca.
__Acha?
__Acho.
__Acha errado.
__Será?
__Aposto.
__Por que eu estaria errado?
__Porque você que é maluco, e não eu.
__Mas você falou que tá apaixonada…
__E morrendo de vontade de trepar. Você não tá?
__Eu…?
__É! Você!
__Você é maluca…
__Não quer ver se são roxos?
__Tá louco… essa maluca tá doida.
__Anda, vem… Não tava em dúvida?
__Agora é outra. Quem é maluco de nós dois?
__E você ainda pergunta. Claro que é você.
__Eu não, maluca é você.
__Olha aqui, doidão, você me pergunta se tenho os pentelhos roxo e ainda fala que eu é que sou maluca! Tá doido? Bebeu? fumou? Me dá um desse que você tomou!
__Já falei, é psicológico. Fiz tratamento durante uns dois anos mais ou menos. Eu ia lá e falava, falava, e ela falava, falava, e eu falava, e ela falava, e no fim das contas eu pagava e não adiantava nada, porque eu fui descobrir que pra aprender as coisas eu preciso escrever.
__Me beija! Me leva pra cama!
__Você só pode ser doida.
__Você foi a única pessoa que disse isso. Será que alguém mais pensaria isso?
__Espero que sim.
__Que isso! Não tem ciúme da sua namorada!?
__Namo – quê!?
__Namorada. Ouviu muito bem! Não somos um casal de namorados?
__Nossa – mãe! Você nasceu?
__Frui brotada. Como todas as outras flores. Olha, já sei com qual vestido vou casar!
__Casar? O que você bebeu?
__Água mineral.
__Com ou sem gás?
__Com.
__É isso. Só pode. Vou escrever para todas as companhias de água e pedir um exame. Você não pode ser normal.
__Querido, já falei sobre ser normal. Não fui eu quem fiz psicóloga pra arrumar uma namorada disposta a casar logo. Saí na rua perguntando a cor do pentelho dos homens? Saí? Agora vai casar! Meu pai morreu, mas se ele fosse vivo diria que com filha dele ninguém brinca! Pode providenciar a festa.
__Você é doida?
__Você agora só sabe falar isso? Seu babaca! Quem é doida aqui, hein!? Fala… Isso é jeito de abordar as pessoas na rua?
__Olha, foi só uma piada.
__Piada? Isso foi uma piada?
__É, foi sim. Por quê? Não gostou?
__Adorei. Agora vamos pro motel.
__Você é louca. Só pode.
__Não fez uma piada com meus cabelos e meus pentelhos? Agora você vai até o motel, nem que seja só pra ver.
__Então mostra aqui mesmo, vai. Rápido. Dá só uma abaixadinha na calça e mostra.
__Aqui? Assim?
__É. Não quer mostrar? Vai fazer doce agora?
__Vai dar não.
__Me chama de louco, chama pro motel (você ia pagar? porque eu não tenho um tostão.), fala que vai mostrar e não mostra. Qual é a sua?
__Raspei.
__Ah… Então tchau.
__Tchau? Maluco, pensou.
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Esta e outras crônicas estarão no livro Conversa Fiada

