3
de
junho
A escola do futuro (continuação)
A escola do futuro
Pilar é menino inteligente, bom na escola, capaz de aprender rápido a lição e ensinar ao colega. “Na lição de escrita, por exemplo, acabava sempre antes de todos, mas deixava-me estar a recortar narizes no papel ou na tábua”. Mesmo bom aluno tinha medo do “mestre” pela severidade, pelo rigor com que tratava a disciplina em sala de aula; os alunos ficavam quietos, com medo da palmatória. A escola hoje não tem a palmatória, mas têm as notas, as faltas, os telefonemas aos pais.
A escola deveria ser um lugar para trocar conhecimentos, fazer amizades, aprender conteúdos vigentes para toda a vida, aprender a respeitar, a ser respeitado. Mas não, nosso mestre nos ilustra uma escola em que as teorias pedagógicas não existem. Hoje elas existem, e mesmo assim as escolas mantêm à força os alunos na linha. Pois bem, o bom aluno ajuda o mau aluno, e o que recebe em troca é uma sova de palmatória.
O professor entra, senta-se, manda os alunos abrirem seus livros e começarem a fazer a lição. Não ensina. Não explica. Não tira dúvida. Senta e lê o jornal. Ele não conhece a turma, com certeza! “O pior que ele poderia ter, para nós, era a palmatória. E essa lá estava, pendurada do portal da janela, à direita, com os seus cinco olhos do diabo.” Que professor é este? Que escola é essa em que o aluno não tem coragem de pedir ao professor que explique novamente o conteúdo?
O menino Pilar sente-se tentado ao ver a moeda na mão de Raimundo. “Respondi-lhe que estava caçoando, mas ele jurou que não.” E então parte para reflexões sobre o porquê da moeda, se era para garantir que lhe ensinasse direito, sem má-fé. Em primeira instância não pensou estar errado em aceitar a moeda, achava justo, “na troca de lição e dinheiro, compra franca, positiva, toma lá, dá cá; tal foi a causa da sensação.”
Observe os termos “compra franca”, “positiva”, “tal foi a causa da sensação”. Não há maldade no pedido e muito menos em aceitar. Não aceita só pela moeda, mas para ajudar o menino. “Se me tem pedido a coisa por favor, alcançá-la-ia do mesmo modo, como de outras vezes”. Pilar foi bom amigo de Raimundo em ensinar a lição, pois sabia o castigo que receberia do pai o colega.
Um menino em sala de aula com dificuldade de aprendizagem, tendo como professor o próprio pai, é obrigado pelo medo de ser castigado a ficar quieto, a recorrer ao colega para ensinar-lhe um ponto da lição. É certo que é muito difícil um aluno levantar a mão e pedir ao professor que repita a explicação nas escolas hoje, pois, não é o professor quem censura, quem utiliza a palmatória, e sim as vaias dos colegas.
Descoberto (delatado) o negócio, os dois alunos são chamados à frente para esclarecimentos.
Policarpo bradou de novo que lhe desse a moeda, e eu não resisti mais, meti a mão no bolso, vagarosamente, saquei-a e entreguei-lha. (…) Acabou, pregou-nos outro sermão. Chamou-nos sem-vergonhas, desaforados, e jurou que se repetíssemos o negócio, apanharíamos tal castigo que nos havia de lembrar para todo sempre. E exclamava: Porcalhões! tratantes! faltos de brio!
Interessante notar o tratamento dado pelo professor aos alunos. Poderia ter perguntado o que não havia compreendido seu filho, parabenizar o colega por ter ensinado o outro, mas não, brigou, insultou, xingou, humilhou os meninos diante da turma. Isso sim é didática do medo, da ameaça, do rebaixamento.
O delator, Curvelo, tremeu de medo, e no fim da aula saiu e não foi visto pelas ruas ao redor da escola. Este era o maior e mais velho da turma; provavelmente mais covarde.
Antes do castigo o menino acreditava não haver maldade no negócio, porém, depois, “a pratinha era bonita e foram eles, Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação”.
Interessante notar que o castigo fez o menino acreditar que tinha mesmo feito algo ruim, contra as normas e valores. Acrescente-se aos conhecimentos do jovem o abuso de poder. O professor tem o poder maior em sala de aula. E algo tem mais poder que ele dentro da sala: a palmatória! Hoje são os diários!
O tempo se encarrega das mudanças!
Considerações finais
Quando se pensa em escola, em primeiro lugar, vem à mente amizade, aprendizagem, companheirismo, respeito, troca de informações e conhecimentos. No entanto, não é isso que nos mostra o “Bruxo do Cosme Velho”.
O texto literário abre portas para discussões a partir de diversos aspectos intrínsecos. Neste caso foi a escola. A maneira como a escola é, com o professor como ditador das regras, os alunos abaixando a cabeça e respondendo ao livro. Não há ensinamento.
Não se parte dos clássicos, se chega aos clássicos!
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Este ensaio participa do 1º Concurso Ensaios Universitários (BH); estará na revista "A vida de quem não morre", produzida pelo amigo Ildo Carbonera, em Foz do Iguaçu, que neste ano homenageará Machado de Assis. © by Márcio A.F. Souza

